A técnica ROPA e o que ela não diz sobre a parceria sáfica

A técnica ROPA costuma ser explicada de forma simples: uma pessoa doa os óvulos, a outra gesta, e ambas participam biologicamente da gravidez. Mas o que quase ninguém fala é o que acontece com a parceria sáfica enquanto tudo isso está se desenrolando.

Reduzir a ROPA a uma técnica é perder o que ela tem de mais importante: ela é uma experiência emocional complexa, relacional e profundamente simbólica. Mexe com vínculo, lugar, corpo e identidade, coisas que não vêm impressas no protocolo médico. É sobre como cada pessoa, e a relação como um todo, se organizam emocionalmente diante desse processo.

Mais do que uma escolha técnica, a ROPA se inscreve como um projeto de vida. E, como todo projeto compartilhado, ela convoca negociações internas e externas que nem sempre são visíveis à primeira vista.

Uma experiência vivida em dois corpos, mas não do mesmo lugar

A ROPA cria algo muito específico: duas pessoas vivendo o mesmo processo a partir de lugares diferentes. É uma divisão de vivências que não encontra muitos paralelos em outras formas de parentalidade.

Uma pessoa oferece seu material genético para que a outra possa gestar. É um ato de confiança difícil de comparar. E como todo movimento dessa magnitude, ele mexe com questões que muitas vezes nem sabíamos que estavam lá. Tem algo muito bonito nisso, mas também existem pontos que precisam ser ditos em voz alta para não se transformarem em ruído na relação.

O que se vive por dentro

Para quem doa os óvulos: pode surgir um orgulho genuíno de contribuir e, ao mesmo tempo, uma sensação de que a experiência não lhe pertence totalmente. Pode haver uma ambivalência sobre o que significa ceder algo tão íntimo, junto com o peso de perguntas silenciosas: “E se o meu corpo não corresponder?”, “Qual é o meu lugar nessa história?”.

Para quem gesta: as transformações são físicas, visíveis e sentidas no corpo todo. Junto a elas, podem surgir dúvidas sobre o espaço que se ocupa: “Como viver essa gestação sem sentir que estou ocupando espaço demais nessa parentalidade?”. O corpo muda, mas também muda a forma como se é percebida, por si mesma, pela parceira e pelo mundo.

Às vezes, aparece um movimento sutil de contenção: evita-se falar demais sobre a gestação ou sobre o que se sente para “proteger” quem doou. Começa-se a regular o afeto para não ferir, o que pode acabar criando uma distância silenciosa.

Quando o cuidado vira silêncio

A técnica ROPA adiciona ritmos emocionais que nem sempre coincidem. Enquanto uma pode estar mais conectada com o corpo e as mudanças concretas, a outra pode estar elaborando aspectos mais simbólicos e subjetivos da experiência.

Quando esses ritmos não são nomeados, cada pessoa começa a proteger a outra da própria experiência. Uma não fala do medo para não sobrecarregar; a outra segura a alegria ou o cansaço para não parecer que está tornando tudo sobre si.

A parceria fica sozinha junto, uma das formas mais silenciosas de solidão. Um excesso de cuidado sem espaço para a honestidade. E é exatamente aí que o processo começa a custar mais do que precisaria.

O que muda quando existe espaço para falar

Não existe fórmula para atravessar a ROPA sem nenhuma turbulência, mas existe uma diferença enorme entre atravessar só e atravessar com um espaço real para nomear o que acontece.

No acompanhamento psicológico, o que eu ofereço é um lugar onde as coisas podem ser ditas antes de virarem distância. Um espaço onde cada pessoa pode falar do seu lugar sem sentir que apaga o da outra, sustentando a diferença sem perder a conexão.

A ROPA é uma escolha feita a duas pessoas. Sustentar essa parceria ao longo do processo também é. E, muitas vezes, é nesse cuidado com o vínculo que a experiência encontra sua forma mais potente de acontecer.


Ariadne Sitaro — Psicóloga Perinatal e da Reprodução Assistida CRP 02/28387 | psicologa@ariadnesitaro.com.br Atendimento presencial em Recife e online para todo o Brasil.

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